Por Flávia Pinheiros
Série: Mercado imobiliário em maturação
O mercado imobiliário não amadureceu de uma vez. Ele está amadurecendo e de forma acelerada.
Depois da pandemia, o setor mudou. O cliente ficou mais atento. O ambiente se tornou mais técnico. E o risco deixou de ser um “detalhe” para ocupar o centro das decisões.
Nesse novo cenário, os bons profissionais já não aceitam improvisos. E o próprio mercado passou a rejeitar discursos fáceis e a figura dos chamados “falsos profetas”.
Depois de 24 anos de atuação no mercado imobiliário, atravessando ciclos econômicos distintos, mudanças regulatórias e transformações profundas no comportamento do cliente, uma constatação se impôs: quanto mais complexo o mercado se torna, menos espaço existe para improviso.
Relatórios do Harvard Joint Center for Housing Studies apontam um ambiente de moradia e financiamento marcado por pressões estruturais, custos elevados e maior sensibilidade ao risco. Trata-se de um contexto que exige decisões embasadas, leitura técnica e processos robustos.
Em mercados mais maduros, essa resposta já veio há algum tempo: formação aplicada, educação executiva e certificações sérias.
O MIT Center for Real Estate, por exemplo, estrutura programas voltados à compreensão das forças que estão transformando o setor — tecnologia, dados, desenho organizacional e tomada de decisão em cenários de mudança.
A Cornell, por meio de seus programas de certificação em real estate, enfatiza rigor acadêmico aliado à aplicação prática em desenvolvimento, investimento e gestão de ativos.
Tudo aponta para a mesma direção: quanto mais complexo o mercado, mais valioso se torna o profissional que trabalha com método, critério e leitura técnica.
No mercado imobiliário, fechar um negócio não envolve apenas preço. Envolve documentos, matrícula, ônus, restrições, histórico do imóvel, responsabilidade contratual, comunicação com o cliente e risco jurídico.
Aqui surge uma pergunta recorrente na prática: quantos negócios deixam de avançar — ou sequer começam — porque o profissional não sabe ler corretamente uma matrícula?
Isso acontece todos os dias.
A insegurança técnica trava a conversa, enfraquece a autoridade e abre espaço para que o cliente busque alguém que transmita segurança. Falta de formação não custa apenas conhecimento. Custa negócio.
Quando o profissional domina leitura documental e gestão de risco, ele conquista vantagens muito concretas:
mais confiança para conduzir a negociação;
Nesse contexto, conhecimento técnico não é acúmulo de “conteúdo”.
É proteção comercial e reputacional.
Formação profissional não pode ser confundida com mentoria pontual ou troca informal de experiências. Mentoria orienta. Certificação forma.
Certificação pressupõe método, carga horária, critérios objetivos, prática supervisionada e responsabilidade sobre aquilo que está sendo ensinado.
É por isso que os grandes centros acadêmicos investem cada vez mais em formação aplicada: programas que conectam teoria, prática, estudos de caso e instrumentos reais de tomada de decisão. Não oferecem fórmulas prontas. Oferecem estrutura para atuar melhor em ambientes complexos.
No Brasil, esse amadurecimento já começou e não há retorno.
O mercado está deixando claro que improviso tem custo.
E preparo deixou de ser diferencial. Virou exigência.
Formação séria não é custo.
É proteção.
É reputação.
É critério.
E, no fim, é também venda mais segura, sustentável e profissional.
Experiência não é algo que se acelera.
É algo que se acumula.
No mercado imobiliário, o tempo vivido, o estudo consistente e a prática responsável não são peso. São capital profissional.
E mercados que amadurecem sabem reconhecer isso.

Flávia Pinheiros é mediadora especialista em Direito Imobiliário e Gestão Patrimonial. Atua há mais de 20 anos no mercado imobiliário, é mentora de profissionais do setor, sócia de administradora de imóveis, avaliadora de patrimônio e mestranda em Mediação de Conflitos.É membro da Academia Brasileira do Mercado Imobiliário e Patrimonial (ABMIP) e participa das comissões da OAB/SP em Direito Sistêmico, Imobiliário e Justiça Restaurativa.
Instagram: @flavia.pinheiroscosta
LinkedIn: linkedin.com/in/flaviapinheiros
Fontes