Sydney J. Harris (1917-1986), jornalista nascido em Londres, RU, porém radicado em Chicago, US, ficou famoso por meio de sua coluna Strickly Personal (Estritamente Pessoal), publicada em mais de 200 jornais. Nela, ele dissertava sobre sociedade, educação e comportamento humano. Em um de seus textos, ele relata que, certa vez, ao comprar um jornal, o amigo que o acompanhava recebeu do jornaleiro tratamento rude e grosseiro. Contudo, ao pegar o jornal que lhe fora atirado a distância, sorriu e desejou ao jornaleiro bom fim de semana.
Na rua, o colunista perguntou ao amigo: ele sempre o trata com essa grosseria? Sim, infelizmente, disse o amigo. E você é sempre tão amável e atencioso com ele? Sim, sou. Por que, se ele é tão rude e deseducado? Porque não posso deixar que o mau humor dele decida como eu devo agir, concluiu o amigo. Harris cria que o poder humano está na capacidade de não se deixar moldar pelas mazelas de terceiros. Reagir às atitudes alheias é abdicar da própria liberdade; ser dono de si é não deixar que o humor de outrem dite o tom da própria vida.
A tendência humana de se espelhar no interlocutor é quase instintiva: sorrir quando sorriem, endurecer quando atacam. Isso é armadilha psicológica, que nos torna reféns da oscilação emocional alheia. Na historieta acima, o amigo que respondia com gentileza ao jornaleiro, apesar da sua rudeza, demonstrava maturidade. Ou seja, não se deixava contaminar pelo ambiente. A postura revela que a verdadeira independência é emocional. Harris asseverava que o mundo funciona como um espelho: reflete em cada pessoa seus próprios pensamentos.
A regra é: quem cultiva fúria, encontra rancor; quem alimenta serenidade, encontra calmaria. Ao escolhermos a amabilidade, mesmo diante da hostilidade, propiciamos uma atmosfera que nos protege da corrosão do ressentimento. Quem controla as próprias emoções resiste à tirania dos humores alheios. Harris insistia que não devemos ser “reatores”, mas “atores”. Reagir é ceder ao impulso imediato; agir é decidir com consciência. A diferença entre reação e ação é essencial para a manutenção da saúde mental e para a convivência social.
Essa filosofia, no entanto, exige disciplina emocional. Não se trata de negar a dor ou a irritação, mas sim de não se deixar dominar por elas. Nosso colunista via a vida como um palco onde cada um deve assumir o papel principal de sua própria história. Agir é definir o roteiro, mesmo quando o cenário é hostil. Essa atitude não apenas preserva a integridade pessoal; ela transforma os ambientes, irradiando serenidade e respeito. Poder escolher nos liberta da submissão ao contexto e nos transforma em criadores de nossas próprias cenas.
Esta reflexão nos convida a uma revolução silenciosa: sermos donos de nós mesmos. Não pode ser o jornaleiro, o vizinho ou o colega de trabalho a decidir como agiremos. A escolha tem de ser nossa, sempre. Se recusamos o reflexo automático e cultivamos a ação consciente, tornamo- nos agentes de mudança. A forma com que encaramos a vida faz a diferença. Temos de controlar as emoções, mesmo em circunstâncias negativas. O mundo pode ser rude, mas nossa reação deve ser nobre. Nessa nobreza é que reside a verdadeira liberdade!