“O mercado imobiliário mudou. A pergunta agora não é quanto vale o imóvel, mas qual é o risco que ele carrega.”
Essa é a reflexão que tenho levado aos debates, cursos e oficinas que venho conduzindo nos últimos anos.
Durante muito tempo, avaliar um imóvel significava observar localização, metragem, padrão construtivo e potencial de valorização. Esses critérios continuam relevantes. Mas já não explicam tudo.
Há pelo menos três anos venho aplicando a abordagem ESG em formações, mentorias e análises práticas com profissionais do setor. E algo se repete com frequência: muitos já vivenciam os impactos do ESG no dia a dia, mas ainda não percebem que fazem parte de uma mudança estrutural.
Quando um investidor questiona se determinado ativo estará sujeito a exigências ambientais mais rígidas no futuro, ele está falando de ESG. Quando um advogado identifica maior rigor regulatório e necessidade de transparência contratual, ele está lidando com ESG. Quando um corretor percebe que alguns imóveis perdem apelo por falta de eficiência, gestão ou previsibilidade, ele já está diante de uma variável ESG.
O conceito pode parecer novo para alguns. A realidade, não.
ESG, sigla para Environmental, Social and Governance (Ambiental, Social e Governança), significa analisar um ativo também sob a perspectiva de responsabilidade ambiental, impacto social e qualidade de governança.
Em termos práticos: compreender se aquele imóvel está preparado para o futuro e se carrega riscos ocultos capazes de afetar valor, liquidez e segurança da decisão.
No exterior, essa análise já integra a rotina de investidores e gestores. Segundo o World Green Building Council, edifícios são responsáveis por aproximadamente 39% das emissões globais de carbono relacionadas à energia, o que impulsionou governos e reguladores a estabelecer padrões mais rigorosos.
Dados do GRESB (Global Real Estate Sustainability Benchmark) indicam que mais de 95% dos investidores utilizam critérios ESG em suas decisões. Em 2023, 2.084 entidades imobiliárias, representando USD 7,2 trilhões em valor de ativos brutos, reportaram seus dados ESG.
O efeito é evidente: ativos que não acompanham esses critérios tendem a enfrentar maior pressão regulatória, risco reputacional e perda de competitividade.
No Brasil, o debate ainda está em fase de amadurecimento. Mas o mercado já se movimenta. E isso aparece na prática: na postura de investidores, no comportamento de clientes, nas discussões sobre contratos, governança condominial, gestão de carteiras e planejamento patrimonial.
ESG oferece uma estrutura para organizar aquilo que muitos profissionais já percebem, mas ainda não nomeiam.
Para advogados, representa uma nova camada de análise preventiva e de segurança jurídica. Para corretores, um diferencial estratégico e uma forma mais qualificada de orientar decisões. Para investidores, um instrumento de proteção e visão de longo prazo.
Não se trata de importar uma agenda externa. Trata-se de compreender uma transformação que já influencia decisões, ainda que nem sempre seja identificada como ESG.
Pesquisas recentes indicam que o interesse por edifícios sustentáveis aumentou 63% na Europa, 54% no Reino Unido e 41% globalmente. Em 2024, 62% dos novos contratos comerciais de locação continham cláusulas verdes. Dois anos antes, eram cerca de 50%.
Estudos demonstram que green leases podem reduzir o consumo de energia de edifícios comerciais entre 11% e 22%. Além disso, imóveis com fortes credenciais ESG tendem a superar ativos convencionais em métricas financeiras relevantes, incluindo prêmios de aluguel mais elevados.
Estamos avaliando apenas o valor do imóvel ou também o risco que ele carrega?
Nos próximos artigos, aprofundarei cada pilar do ESG com aplicação prática à realidade brasileira, conectando experiência de campo, gestão patrimonial e análise estratégica.
Porque o valor do imóvel continua importante. Mas compreender o risco que ele carrega tornou-se indispensável.

Flávia Pinheiros é mediadora especialista em Direito Imobiliário e Gestão Patrimonial. Atua há mais de 20 anos no mercado imobiliário, é mentora de profissionais do setor, sócia de administradora de imóveis, avaliadora de patrimônio e mestranda em Mediação de Conflitos.É membro da Academia Brasileira do Mercado Imobiliário e Patrimonial (ABMIP) e participa das comissões da OAB/SP em Direito Sistêmico, Imobiliário e Justiça Restaurativa.
Instagram: @flavia.pinheiroscosta
LinkedIn: linkedin.com/in/flaviapinheiros
Fontes: