Governança Patrimonial: O pilar do ESG cuja ausência fragiliza famílias no Brasil

Por Flávia Pinheiros

“O imóvel está regular. Mas a família está preparada?”

Essa pergunta raramente aparece nas avaliações técnicas. Mas é ela que determina se um patrimônio será preservado ou fragmentado.

Nos últimos anos, ao estudar e aplicar a metodologia ESG no mercado imobiliário, ficou evidente que o pilar mais negligenciado no Brasil não é o ambiental. É a governança.

Enquanto falamos de valorização, sustentabilidade e inovação, seguimos convivendo com inventários intermináveis, estruturas societárias frágeis e patrimônios familiares sem regras claras de sucessão.

Isso não é apenas desorganização. É risco estrutural.

 

Governança: o que a literatura internacional já consolidou

O pilar “G” do ESG, Governança, é amplamente reconhecido como elemento central na análise de risco e performance.

Segundo a OCDE, boas práticas de governança reduzem conflitos de interesse, aumentam previsibilidade e fortalecem a sustentabilidade dos ativos no longo prazo.

No setor imobiliário, relatórios do GRESB mostram que investidores institucionais atribuem peso relevante à qualidade da governança na avaliação de portfólios. Em 2023, mais de 2.000 entidades imobiliárias, representando cerca de USD 7,2 trilhões em ativos, reportaram dados estruturados de governança como parte de suas métricas ESG.

A PwC, no relatório Emerging Trends in Real Estate 2026, destaca que transparência regulatória, clareza societária e estrutura sucessória passaram a integrar a matriz de risco considerada por investidores globais.

Governança deixou de ser formalidade. É critério de decisão.

 

O que é governança patrimonial na prática

No contexto das famílias brasileiras, governança patrimonial significa estrutura societária clara, acordos formalizados entre herdeiros e sócios, regras prévias para venda ou administração dos ativos, planejamento sucessório estruturado, organização documental e definição objetiva de responsabilidades.

Sem esses elementos, o patrimônio pode até estar valorizado, mas permanece vulnerável. E vulnerabilidade é risco.

 

Por que tenho levado esse tema às minhas formações

Nos últimos anos, tenho inserido de forma consistente o debate sobre governança patrimonial em minhas formações e mentorias. Não como teoria importada, mas como necessidade prática do profissional que deseja atuar com responsabilidade e visão de longo prazo.

O corretor que compreende governança orienta melhor seu cliente. O advogado que enxerga governança antecipa conflitos. O gestor que estrutura governança protege o ativo antes que ele se fragilize.

Tenho observado que, quando o profissional passa a analisar o imóvel também sob o prisma da governança, sua atuação se torna mais estratégica. Ele deixa de ser apenas intermediador e passa a ser orientador de decisões.

E o mercado já começa a reconhecer essa diferença.

 

O custo da ausência de governança

Estudos do Harvard Joint Center for Housing Studies apontam que insegurança jurídica e ausência de estrutura sucessória comprometem a preservação intergeracional de ativos imobiliários.

Na prática brasileira, isso se traduz em inventários prolongados, bloqueios judiciais, deterioração de imóveis durante disputas, perda de liquidez por indefinições documentais e desgaste irreversível nas relações familiares.

O imóvel pode estar registrado. Mas o sistema que o sustenta pode estar frágil.

 

A pergunta que permanece

Seu patrimônio está valorizado ou está estruturado?

Porque valor pode ser medido. Estrutura, quando ignorada, só é percebida quando falha.

Patrimônio não é apenas aquilo que se acumula. É aquilo que resiste ao tempo.

 

CONHEÇA MAIS SOBRE A AUTORA DESTE POST:

Flávia Pinheiros é mediadora especialista em Direito Imobiliário e Gestão Patrimonial. Atua há mais de 20 anos no mercado imobiliário, é mentora de profissionais do setor, sócia de administradora de imóveis, avaliadora de patrimônio e mestranda em Mediação de Conflitos.É membro da Academia Brasileira do Mercado Imobiliário e Patrimonial (ABMIP) e participa das comissões da OAB/SP em Direito Sistêmico, Imobiliário e Justiça Restaurativa.

Instagram: @flavia.pinheiroscosta

LinkedIn: linkedin.com/in/flaviapinheiros

 

Fontes:

  • OCDE – Princípios de Governança Corporativa
  • GRESB (Global Real Estate Sustainability Benchmark) – 2023 Real Estate Assessment Results
  • PwC – Emerging Trends in Real Estate 2026
  • Harvard Joint Center for Housing Studies – Housing and Wealth Building

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