Patrimônio em ordem. Família em conflito

Por Flávia Pinheiros

 

Um imóvel pode estar juridicamente perfeito e ainda assim gerar um conflito familiar.

Há alguns anos, acompanhei uma situação que, no papel, parecia simples.

Três irmãos. Um apartamento no centro da cidade. Documentação impecável. Matrícula atualizada. Sem ônus. IPTU em dia.

Qualquer corretor diria: “Esse imóvel está pronto para vender.”

Mas havia um problema: a família não conseguia decidir.

A filha primogênita queria vender e investir o dinheiro. O filho do meio defendia que o apartamento deveria permanecer na família. A caçula queria reformar e colocar para locação.

Três visões distintas sobre o mesmo imóvel e todas faziam sentido.

 

O erro que o mercado imobiliário ainda comete.

No mercado imobiliário, existe uma crença silenciosa: se a documentação está certa, o negócio vai acontecer.

Mas quem trabalha com patrimônio familiar sabe que não é tão simples. Porque patrimônio não é apenas um ativo. Ele é também memória, história, identidade e pertencimento.

Aquele apartamento não era apenas um imóvel. Era um bem carregado de significados diferentes para cada um dos herdeiros — e isso tornava qualquer decisão mais complexa do que os números sugeriam.

Quando um imóvel carrega história, ele deixa de ser apenas um ativo imobiliário. Ele se torna um ponto de tensão familiar. E tensão não se resolve com documentação em ordem.

 

Por que tantos negócios travam no final?

Quem atua no mercado imobiliário já viu isso acontecer. Tudo parece certo: cliente interessado, valor alinhado, documentação pronta. E, de repente, o negócio trava.

Não por causa do imóvel. Mas por causa das pessoas.

Porque alguém da família não quer vender. Porque outro acha que o preço está baixo. Porque alguém sente que está abrindo mão de algo que vai além do dinheiro.

Quando essas questões não aparecem na conversa, elas aparecem no conflito.

 

O que falta não é técnica. É governança.

Nos últimos anos, tanto nos estudos que venho desenvolvendo quanto nos cursos de fechamentos imobiliários que ministro, tenho trabalhado com governança patrimonial aplicada ao mercado imobiliário e uma coisa ficou clara:

Muitos conflitos imobiliários não são jurídicos. São decisórios. As famílias simplesmente não têm estrutura para decidir juntas sobre patrimônio.

Segundo o Global Family Business Survey da PwC, famílias que estruturam governança e planejamento sucessório conseguem preservar melhor tanto o patrimônio quanto as relações familiares. Não é sorte. É estrutura.

 

O que aconteceu com aquela família?

A decisão não foi imediata.

Os irmãos tinham visões diferentes sobre o imóvel e nenhuma delas era errada. O que faltava era um processo para que pudessem conversar sobre o assunto sem transformar a discussão em conflito pessoal.

Foram necessárias várias reuniões. Houve desentendimentos. Em alguns momentos, pareceu que não haveria acordo.

Com o tempo, cada um conseguiu expor o que esperava do imóvel — e entender o que os outros esperavam também. Não foi um processo simples, mas foi necessário.

No final, decidiram vender. Não porque chegaram a um consenso espontâneo, mas porque construíram, juntos, as condições para tomar uma decisão.

 

Uma pergunta que o mercado imobiliário ainda faz pouco.

Quando analisamos um imóvel, quase sempre perguntamos: “Ele está regular?”

Talvez devêssemos perguntar também: a família está preparada para decidir sobre ele?

Porque patrimônio não se preserva apenas com documentação em ordem. Ele se preserva com conversa, estrutura e clareza nas decisões. E quando isso existe, até mesmo decisões complicadas se tornam possíveis.

 

CONHEÇA MAIS SOBRE A AUTORA DESTE POST:

Flávia Pinheiros é mediadora especialista em Direito Imobiliário e Gestão Patrimonial. Atua há mais de 20 anos no mercado imobiliário, é mentora de profissionais do setor, sócia de administradora de imóveis, avaliadora de patrimônio e mestranda em Mediação de Conflitos.É membro da Academia Brasileira do Mercado Imobiliário e Patrimonial (ABMIP) e participa das comissões da OAB/SP em Direito Sistêmico, Imobiliário e Justiça Restaurativa.

Instagram: @flavia.pinheiroscosta

LinkedIn: linkedin.com/in/flaviapinheiros

 

 

Fontes:

PwC – Global Family Business Survey, 11ª edição (2023)

OECD – G20/OECD Principles of Corporate Governance (2023)

Harvard Joint Center for Housing Studies – Housing and Wealth Building Research

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